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“PRR para a Diabetes” quer menos pessoas com diabetes, mais acesso e melhores resultados em saúde

No âmbito da iniciativa “Um PRR para a Diabetes – A Oportunidade é Agora”, promovida pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares [APAH] e a Novo Nordisk, com  o apoio técnico da MOAI Consulting e da consultora IASIST, realizou-se uma análise  que procurou avaliar o impacto provocado pela pandemia na gestão da diabetes, ao nível dos cuidados de saúde primários e dos hospitais do SNS.

Diabetes e Covid-19: Estudo revela que a gestão da diabetes foi fortemente afetada pela redução dos cuidados de saúde provocada pela pandemia

  • A proporção de pessoas com diabetes com registo de acompanhamento adequado sofreu um decréscimo de 56% no primeiro ano de pandemia, face a 2019;
  • Menos doentes com diabetes tratados nos hospitais do SNS, mas com maior complexidade e gravidade, mais dias de internamento e  aumento da mortalidade hospitalar.

O impacto nos Cuidados de Saúde Primários

No que diz respeito aos Cuidados de Saúde Primários, entre março e dezembro de 2020, o receio de interação com estas unidades e uma potencial limitação na capacidade de vigilância e monitorização ativa por parte destes serviços resultou num decréscimo de 23% nos valores de incidência [novos casos] de diabetes. O mesmo aconteceu com a obesidade, principal fator de risco para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 – foram registados menos 62% de novos casos.

Por outro lado, a alocação exaustiva de recursos humanos e técnicos para responder à Covid-19 comprometeu a dinâmica assistencial em vários domínios relevantes para a prevenção de complicações na diabetes. Só no primeiro ano de pandemia foi possível verificar um decréscimo:

  • de 13,5% por cento na cobertura populacional de consultas de enfermagem de vigilância da diabetes;
  • de 16,5% nos rastreios de retinopatia diabética;
  • de 19% na cobertura da consulta de pé diabético;
  • de 14,5% no número de pessoas com diabetes com uma gestão adequada do regime terapêutico;

Na globalidade, a proporção de pessoas com diabetes com registo de acompanhamento adequado sofreu um decréscimo de 56% no primeiro ano de pandemia, face a 2019. Conheça todos os dados apurados pelo estudo aqui:

O impacto nos Hospitais do SNS

Já nos hospitais do SNS, os dados referentes ao ano de 2020, por comparação ao ano anterior, revelam que houve um decréscimo de 15% no número de doentes com diabetes, quer em internamento, quer em hospital de dia e outras formas de tratamento ambulatório, verificando-se  as maiores reduções entre os períodos homólogos de abril [-40%] e maio [-25%]. Tais resultados podem ser explicados por diversos fatores como a concentração dos hospitais nos doentes com Covid-19, o receio dos doentes em procurar serviços de saúde e a política geral de confinamento.

Contudo, o peso relativo dos doentes com diabetes no contexto da atividade de internamento hospitalar aumentou em cerca de 5% no mesmo período. Admite-se que a súbita falha na resposta dos serviços de saúde poderá ter tido uma repercussão mais negativa em doentes diabéticos, provocando descompensações que motivaram a procura hospitalar.

O estudo mostra que a complexidade casuística da diabetes aumentou em 2020 cerca de 15%, o que se traduz num aumento de custos médios por doente tratado de 2.900€ [2019] para 3.300€ [2020]. Quando comparado com um “doente padrão” com alta hospitalar nos hospitais do SNS em 2020, os doentes com diagnóstico principal de diabetes apresentaram um custo médio de recursos 30% superior. Se olharmos ao tempo médio de internamento, também se registou um aumento de 2,5% para doentes com diabetes como diagnóstico principal e 3,8% nos casos em que a diabetes foi diagnóstico secundário, o que parece confirmar a maior complexidade dos doentes com diabetes.

Apesar da redução na mortalidade geral hospitalar de 2,2% – fenómeno ainda não devidamente estudado, mas que poderá estar relacionado com a redução da procura e o confinamento, que provocaram mais mortalidade no domicílio e nas Estruturas Residenciais para Idosos [ERPIs], contrariando até a ideia de que a Covid-19 teria induzido uma maior mortalidade hospitalar – verificou-se um aumento da mortalidade intra-hospitalar nos doentes com diabetes em  6,9% e 5,1%, respetivamente em doentes com diagnóstico principal e  diagnóstico secundário.

No entanto a evolução mais significativa resulta da análise da letalidade da doença, ou seja, o número de óbitos face aos doentes internados que registou um aumento de 24,9% nos doentes com diabetes como diagnóstico principal e 22,6% nos doentes com diabetes como diagnóstico secundário. Parece assim, evidente, que estivemos, em 2020, perante uma casuística com diabetes mais severa, com uma letalidade francamente superior.

Relativamente às complicações, é particularmente relevante o crescimento de 2% nas amputações major em doentes com diabetes como diagnóstico principal, ao contrário do que se passou a nível nacional [redução de 8,1%] e nos doentes com diabetes como diagnóstico secundário [redução de 7,6%]. Assinala-se um aumento verificado logo em março, no início da pandemia, de 55% no número de amputações, face ao mês homólogo do ano de 2019.

Este estudo analisou ainda a relação da diabetes com o Acidente Vascular Cerebral [AVC] e o Enfarte Agudo do Miocárdio [EAM] evidenciando, no caso do AVC, um aumento de 9% no número total de óbitos e de 15,4% da letalidade, em 2020. Já nos doentes com diabetes e com EAM, os 5.500 doentes identificados em 2020 representam uma diminuição de 15%, face ao número de casos no ano anterior. Apesar de a mortalidade ter sido semelhante entre os dois períodos, a taxa de letalidade aumentou 17%.

Educação, prevenção, capacidade resolutiva, governação e cooperação operacional, inovação digital e novos modelos de financiamento são as seis áreas de intervenção do Plano

A iniciativa “Um PRR para a Diabetes – A Oportunidade é Agora” juntou 20 especialistas com o objetivo de definir um plano de ação que altere o paradigma da resposta aos desafios da diabetes em Portugal contribuindo para a identificação daqueles que se consideram ser os eixos de intervenção prioritários nesta área.

Face a um diagnóstico complexo e multifatorial da realidade da diabetes em Portugal, significativamente agravado pelo impacto da pandemia, a iniciativa “Um PRR para a Diabetes – A oportunidade é agora” defende a necessidade da existência de um exercício de ampla planificação estratégica que alavanque inovação estrutural nos modelos operacionais e uma resposta ao universo de desafios adjacentes à diabetes.

São três as prioridades do “Plano de Reconstrução para a diabetes

  • Menos pessoas com diabetes: Prevenir, mitigar ou reverter a prevalência da diabetes, atuando na sua forte relação causal com fatores de risco bem identificados, como a obesidade, o sedentarismo e as condicionantes socioeconómicas. O sucesso passa pela estabilização da incidência da diabetes e obesidade até 2030, pela definição e análise contínua de indicadores de sinalização e controlo da pré-diabetes nos Cuidados de Saúde Primários, pela melhoria nos estilos de vida na população e pela implementação  de uma Estratégia Local para Prevenção da Diabetes em 100% de ACES/Municípios até 2030;
  • Mais pessoas com acesso aos melhores cuidados: isto é,  aumento do número de pessoas com diabetes com acompanhamento adequado nos Cuidados de Saúde Primários e o alcance de um  conjunto de metas, entre as quais:  a definição e implementação de rácios adequados de cobertura de equipa multidisciplinar da patologia, 100% de Unidades Coordenadoras Funcionais da Diabetes com Protocolo de Integração de Cuidados e 100% de cobertura nacional da Plataforma Digital Centralizada para a gestão do doente;
  • Melhores resultados em saúde: Pretende-se estimular a disseminação de boas práticas intra e inter níveis de cuidados, de forma a que, gradualmente, mais pessoas com diabetes possam beneficiar de modelos inovadores, geradores de melhores resultados em saúde e, idealmente, de mais eficiência na alocação de recursos. Para o fazer, o plano defende a criação e avaliação de métricas de qualidade de vida e experiência do doente, a redução dos valores reportados de carga de doença associada à diabetes em 25% até 2030, a criação de um repositório de boas práticas assistenciais e desenvolvimento de um Registo Nacional da Diabetes.

Para alcançar estes objetivos, o Steering Committee e a Task Force definiram seis áreas de intervenção e respetivas linhas de ação:

  • Prevenção: Um dos pilares fundamentais da proposta de intervenção, que deverá envolver todos os setores da sociedade através da promoção da literacia em saúde e do reforço de ferramentas de estratificação de risco e da resposta atempada e holística;
  • Educação: Capacitar o cidadão para o processamento de informação de saúde, envolvendo e formando pessoas com diabetes e pré-diabetes, cuidadores e equipas de saúde;
  • Capacidade resolutiva: Por muito eficaz que seja um diagnóstico de desafios e prioridades, é crucial garantir a capacidade de resposta atempada, proativa e eficaz às necessidades. Para o fazer, as linhas de ação apontadas são a inovação e o investimento na gestão de recursos humanos e a promoção de experiências de integração e multidisciplinaridade;
  • Governação e cooperação: Defendendo a ideia de que a diabetes deve ser encarada como doença social, a visão e aposta de reforço das intervenções praticadas em contexto comunitário ganham um lugar de destaque. Isto deve ser conseguido através da capacitação das Unidades de Cuidados na Comunidade, implementação plena do Plano Individual de Cuidados, parcerias multissetoriais na comunidade e intervenções comunitárias na modalidade de partilha de risco e responsabilidade;
  • Inovação digital: neste ponto, o plano identifica como linhas de ação a construção de um ecossistema sólido de SI (sistemas de informação) e partilha de dados, modalidades inovadoras de monitorização integrada do doente crónico e modelos protocolados de telegestão da pessoa com diabetes;
  • Modelo de financiamento: Os grupos de trabalho defendem uma reconfiguração para que este passe a assentar numa visão preventiva e de intervenção comunitária, através do desenvolvimento de um modelo de financiamento inovador, de visão populacional, que promova intervenções de cariz comunitário e a reformulação do conjunto de indicadores de desempenho associados à prevenção e gestão da diabetes.

Assista aqui à sessão publica de apresentação do ““Plano de Reconstrução para a diabetes“:

Mais informação sobre a iniciativa “Um PRR para a Diabetes – A Oportunidade é Agora” aqui: Um PRR para a Diabetes

APAH apresenta análise do impacto da pandemia na gestão dos cuidados de saúde na diabetes — APAH